A morte e a complexidade do luto, contadas por Jão em ‘Memórias Póstumas’
Categoria: Relacionamentos
Ao longo das faixas do novo álbum, o cantor compartilha sentimentos e pensamentos que o atravessaram após perder alguém muito importante.
Por Capricho | 30/09/2026
N o dia em que meu pai partiu, alguém nasceu, na hora em que tudo aconteceu, a padaria serviu pães, o hospital fez mães, alguém me disse adeus. O trecho faz parte de Catedral , primeira faixa do novo álbum de Jão , Memórias Póstumas , escrito em meio ao seu processo de luto da morte de seu pai, Carlos Alberto. Ao longo desta e de outras canções do trabalho mais recente, o artista usa sua arte como uma forma não só de registrar, mas também de digerir a complexidade do luto. A morte vem em um dia comum, a vida das pessoas ao redor segue normalmente, enquanto quem perdeu alguém muito importante enfrenta uma das dores mais difíceis. Em entrevista ao G1 em julho deste ano, Jão conta que sempre imaginou as coisas de uma maneira muito épica, mas não é bem assim. “ Achava que, no dia que eu perdesse alguém ia ser uma coisa, uma chuva torrencial e eu ia, sei lá, receber vários sinais divinos. Mas era só um dia comum”, conta. E, no luto, é justamente nos dias comuns, como um almoço de domingo, que a saudade pode mais apertar e exaltar a perda. “Há uma mesa, nela se senta a nossa família, o Sol na cortina, e você aqui. Eu não processo, não”, escreve em Literatura . Continua após a publicidade Nessa faixa, Jão fala da tentativa de reviver (ou reiventar) esse cotidiano perdido por meio da escrita e reforça essa vontade de mudar esse destino que atravessa o luto da maioria das pessoas. “Vai ver eu poderia escrever alguma coisa que mudaria o rumo cruel dessa história pra te ter aqui. Vai ver o tempo pare e gire o mundo ao inverso. E na realidade desses novos versos, eu te veja aqui”, escreve em outro trecho. Mas parte do luto é também aceitar que a morte é cotidiana. Na capa do álbum, Jão aparece pegando uma carona com a Senhora Morte. “[A capa mostra] a forma como a gente se relaciona com ela no dia a dia e a forma como ela é inesperada. E eu acho que essa é a representação perfeita de como ela tá ali e como não existe um objetivo. Acho que eu entendi muito isso, não existe um objetivo com o luto, não existe um objetivo com tentar entender esse sentido. É um aprendizado de convivência mesmo”, afirmou o cantor na entrevista ao G1 citada anteriormente. Continua após a publicidade A psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross apontou a existência de cinco fases do luto: a negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação. A questão é que não há um tempo estipulado para que elas terminem e algumas pessoas vivem mais de uma fase ao mesmo tempo. O luto é um processo individual, e superá-lo não é esquecer quem morreu ou não sentir mais dor ou saudade – é ver esperança novamente para seguir em frente. “Tudo que eu perdi é o que eu mais sou agora. Na noite é que você consegue ver a aurora”, canta em Aurora , ressaltando que a luz aparece depois da escuridão. E em outro trecho reforça: “Eu só quero ser feliz de novo”. Continua após a publicidade Como foi possível ver no show de abertura da turnê, que aconteceu em 25 de se