Até que ponto é válido usar trends como posicionamento político?
Categoria: Relacionamentos
É preciso prestar atenção e se questionar: será que não estamos apenas usando a estética para suavizar assuntos nas redes sociais?
Por Capricho | 03/10/2026
N ós nos enquadramos ao modelo das redes sociais , da pressa de fazer caber uma história em trinta segundos. Aos poucos, nos habituamos a usar novas ferramentas, como as republicações, nosso próprio quadro de avisos; uma nova maneira de expressar opiniões, demonstrar interesses e compartilhar conteúdos legais. E, apesar de querermos encaixar os conteúdos à nossa estética, nem sempre isso é possível e, assim, criam-se novas tendências para que mais pessoas possam aderir às conversas. De certo modo, isso é ótimo. Chama atenção, gera identificação e traz conforto saber que podemos nos manifestar por meio desses pequenos espaços, sem grandes esforços, e deixar claro um aviso para quem quer que adentre o nosso território, seja sobre as bandeiras que defendemos ou os artistas que acompanhamos. No entanto, quando falamos de pautas sociais, nem tudo pode ser moldado para caber nos moldes das redes sociais. Para as novas gerações, há uma espécie de amnésia coletiva de que as pautas sociais não são esteticamente bonitas — e sequer deveriam ser. Quando uma causa entra nos moldes do entretenimento, sem intenção, sua complexidade é drenada, restando apenas mais um conteúdo. Conscientizar e dar voz a problemas sociais não são o problema. Afinal, a comoção pública é um forte instrumento político, e esses compartilhamentos são necessários para reforçar a urgência. O ponto é querer encaixar tudo em moldes virais que não promovem lutas coletivas, mas apenas alimentam o ego sob o disfarce de posicionamento político. O problema não está na trend em si, mas no momento em que ela passa a priorizar a estética em detrimento da informação. Continua após a publicidade Um exemplo são os vídeos que intercalam fotos de mulheres brasileiras e de mulheres afegãs. Esse tipo de conteúdo promove uma comparação. O foco deixa de ser a realidade dessas mulheres e passa a ser a forma como escolhemos apresentá-la. Colocá-las como parâmetro valoriza apenas a nossa própria liberdade, voltando o assunto para nós e para a “sorte” que tivemos de não nascer naquele país, quando, na verdade, a liberdade feminina não é uma questão de sorte, mas uma condição política e social. Se colocamos essas mulheres como objeto de comparação, nós as deixamos em um campo de inércia. Não existe movimento que fomente mudanças em sua realidade ou que espalhe conhecimento sobre a repressão de seus direitos. Assim, banalizamos essas vivências e as reduzimos a um recurso estético, acreditando que, de alguma forma, estamos gerando movimentação. Continua após a publicidade É claro que, com os avanços tecnológicos e a maneira como nos relacionamos com as redes sociais, hoje transformadas em extensões de nós mesmos, haveria essa mudança na perspectiva do que é demonstrar preocupação. Mas é necessário que, antes de reproduzir comportamentos, pensemos se, talvez, o simples ato de curtir e compartilhar um vídeo mais extenso, com melhores exemplificações e exposições do problema, não seja mais eficaz do que republicar u