Tudo clean? Quando a estética vira padrão e apaga quem a gente é
Categoria: Relacionamentos
A tendência “clean girl” promete leveza e simplicidade. Mas será que, no fundo, ela só repagina antigas pressões sobre o corpo e a expressão feminina?
Por Capricho | 27/06/2026
D e repente, o “ideal” de beleza voltou a ser silencioso. Cabelos presos com gel, maquiagem quase invisível, roupas neutras, poucos acessórios. Tudo muito organizado, muito alinhado, muito…controlado. A estética “clean girl” que tomou conta das redes sociais, parece vender uma imagem de leveza e autocuidado . Mas, olhando mais de perto, ela levanta uma pergunta que incomoda: quem pode ser “clean” e a que custo? Porque, historicamente, ser mulher nunca foi sobre liberdade total. Sempre existiu um roteiro: como se portar, como se vestir, como falar, quando e quanto aparecer. Um caminho estreito, cheio de regras silenciosas que definem quem é “adequado” ou “feminina” o suficiente. Por outro lado, a luta feminina atravessa corpos e vozes que vieram antes de nós. E essa resistência precisa continuar dentro da nossa própria comunidade. Porque muitas das vezes são essas mesmas amarras que a gente aprende e reproduz. E aí vem a estética “clean girl”, não exatamente como algo novo, mas como uma releitura mais suave dessas mesmas exigências enraizadas estruturalmente. Sem exageros. Sem cores demais. Sem “informação demais”. Mas e tudo aquilo que sempre fez parte da construção da identidade de tantas garotas? Desde crianças, a gente experimenta o mundo através da estética. É pintar a unha de jeitos diferentes, querer o cabelo igual ao de uma personagem, usar presilhas, glitter, roupas estampadas, misturar estilos sem medo de errar. Continua após a publicidade Nos anos 2000, por exemplo, isso era quase um manifesto visual: quartos cheios de colagens, pôsteres, looks coloridos e alternativos, acessórios exagerados, maquiagem divertida. Não era sobre “estar arrumada” era sobre estar se construindo e explorando possibilidades. E isso era pra tudo: nas festas, na escola, na pracinha e até mesmo na noite das garotas! Agora, parte disso começa a ser tratado como “excesso”. Como “bagunça”. Como o oposto do que seria o ideal. É possível notar isso até mesmo no setor industrial, em que o mercado está optando cada vez por designs e formas minimalistas, onde se vende uma ideia de “refinamento”. E vamos ser sinceros, com essas mudanças — leia-se padronizações — passamos batido pelos produtos, sem saber distinguir as marcas e o verdadeiro diferencial entre elas. E é aí que o problema aparece. Quando uma estética ganha o status de “limpa”, tudo o que foge dela corre o risco de ser visto como o contrário: sujo, exagerado, desleixado. E isso não é só sobre aparência, é sobre buscar e ser quem a gente é. Continua após a publicidade Por que um rosto quase sem maquiagem é considerado mais elegante do que uma make criativa? Por que um cabelo alinhado é visto como mais “bonito” do que um cabelo com frizz, cacheado, crespo ou colorido? Por que o neutro é sinônimo de sofisticação, enquanto o que foge disso vira sinônimo de infantilidade ou excesso? Por trás de toda garota existe cor, bagunça criativa e identidade. E isso não deveria ser tratado como algo a ser corrigido. Somos ser