Quebrando o silêncio: A realidade dos 78%
Categoria: Relacionamentos
É nomeando a violência que podemos falar de prevenção. Abordando consentimento e entendendo o que, de fato, é violência sexual.
Por Capricho | 11/05/2026
A lguém já tocou em você de um jeito que te deixou desconfortável e você não soube o que fazer? Se você, assim como eu, respondeu que sim, saiba: durante muito tempo, eu também não soube o que fazer com essa sensação. E o que eu aprendi até agora é: não erramos e não estamos sozinhas. Trago esse tema para a coluna deste mês, porque 18 de maio é o Dia Nacional do Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. E você sabe qual a importância desta data? No Brasil, 78% das vítimas de estupro têm até 17 anos e 61,3% são menores de 14 anos — o que significa haver seis estupros por hora. Os dados, do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, são apenas uma fração do que realmente acontece no país, já que só 11% dos crimes de estupro são denunciados. E, não sei se você sabe, mas a grande maioria dos estupros de vulneráveis, praticamente 70%, acontece dentro de casa, 85% das vítimas são meninas e 92% dos crimes são praticados por pessoas próximas — como um familiar, vizinho ou amigo da família. Ou seja, não é o estranho da rua. Quase nunca é. E isso explica por que é tão difícil falar sobre o assunto. Quando o abusador é alguém próximo, o silêncio aparece como a única saída. A vergonha surge no lugar da raiva, da indignação. A dúvida aparece onde deveria estar a certeza de que o que aconteceu foi errado. Continua após a publicidade Como psicanalista, lido com essas questões com frequência — de crianças, adolescentes e adultos que carregam por anos um trauma que nunca conseguiram nomear, porque quem sofreu uma violência sexual, muitas vezes, carrega a sensação de que o erro foi seu. Nomear é o primeiro passo. E é também nomeando a violência que podemos falar de prevenção. Abordando consentimento e entendendo o que é violência sexual. Consentimento não é um tema de aula ou um simples “sim é sim, não é não”. É algo que diz respeito ao seu corpo, às suas escolhas, ao seu direito de dizer “sim” ou “não” – e isso vale para qualquer pessoa e em qualquer situação, sem necessidade de explicação. O que isso significa, CAPRICHO? Segundo o código penal (artigo 217-A), estupro de vulnerável é o crime de praticar qualquer ato libidinoso ou conjunção carnal com pessoa menor de 14 anos, pessoa com deficiência que não tenha como discernir para a prática do ato, ou a pessoa que, por qualquer outra razão, não pode oferecer resistência. Continua após a publicidade O livro Precisamos falar de Consentimento: uma conversa descomplicada sobre violência sexual além do sim e do não , de Arielle Sagrillo Scarpati, Beatriz Accioly Lins e Silvia Chakian (Amazon R$ 73*), coloca em palavras aquilo que deveria ser ensinado desde cedo: o assunto não precisa envolver conversas difíceis e pode ser discutido com uma linguagem simples. Essa é uma conversa necessária, até porque, entre o “sim e o não”, existe uma enorme zona em que a violência muitas vezes se esconde. E essa conversa precisa acontecer nas escolas, nos grupos de amigos e em casa. Se quiser começar por