A artista que transformou uma roupa da avó em um reencontro
Categoria: Relacionamentos
Em mostra na Japan House, Kaoru Hirano parte de um juban que pertenceu à avó para falar sobre tempo, ausência e as histórias que carregamos.
Por Capricho | 07/09/2026
V ocê já guardou uma camiseta, uma carta ou até um objeto aparentemente banal simplesmente porque ele pertenceu a alguém importante? Às vezes, aquilo que ocupa pouco espaço dentro de uma gaveta consegue carregar uma história inteira. É justamente desse encontro entre memória e matéria que parte o trabalho da artista japonesa Kaoru Hirano, em exposição na Japan House São Paulo. Continua após a publicidade Uma das obras apresentadas nasceu a partir de um juban , peça tradicional usada sob o quimono, que pertenceu à avó da artista. Curiosamente, Hirano não começou o trabalho sabendo que recorreria a uma memória tão pessoal. Em entrevista à CAPRICHO, ela contou que recebeu a proposta de desenvolver um trabalho relacionado ao tempo e à cor branca , algo que ainda não havia explorado daquela maneira. Foi então que telefonou para a mãe para perguntar se, entre os pertences de sua avó, existia alguma peça que pudesse dialogar com a ideia. Assim, encontrou o juban. Continua após a publicidade O processo acabou transformando uma roupa de família em algo maior. Ao trabalhar artisticamente com a peça, Hirano percebeu que não estava necessariamente lidando com uma despedida. “Eu me senti mais como se estivesse tendo um reencontro com a minha avó”, contou à CAPRICHO. O que fica de alguém nos objetos dela? É uma sensação que provavelmente não está restrita à história da artista. Uma roupa que ainda guarda o formato de quem a usou, uma carta escrita à mão, uma fotografia esquecida em uma caixa ou aquele objeto que ninguém na família tem coragem de jogar fora: coisas podem funcionar como pequenos arquivos de uma vida. Para Hirano, talvez exista algo que seja transmitido justamente por meio dos objetos físicos. A reflexão ganha outra camada em uma época na qual grande parte das nossas lembranças está armazenada em celulares, nuvens e redes sociais. Nunca produzimos e guardamos tanta informação, mas uma parcela enorme dela já não pode ser segurada nas mãos. Continua após a publicidade Na obra da artista, o tecido ocupa esse lugar físico da memória. E, embora o ponto de partida seja profundamente particular, Hirano não quer determinar o que cada visitante deve enxergar. Pelo contrário. “Eu espero que todos possam visualizar suas próprias memórias e desenhá-las na tela da obra”, explicou. Uma espécie de tela em branco <span class="hidden">–</span> Ricardo Amado/Japan House/Divulgação Essa abertura para a imaginação também aparece em uma escolha importante de Hirano: ela não mostra o rosto das pessoas que originalmente vestiram as peças representadas em seus trabalhos. Segundo a artista, alguém já descreveu suas obras como “telas em branco”, porque elas permitem que cada pessoa imagine outros corpos, rostos e histórias ocupando aquelas roupas. Continua após a publicidade O próprio branco ajuda nesse processo. Para Hirano, a cor cria espaço para que o público projete suas próprias imagens mentais: quem poderia ter usado aquela peça? Que pess